
Digitalização e transporte rodoviário: para onde se dirige o setor na Europa?
A digitalização levou a algumas mudanças significativas no transporte rodoviário a nível europeu. Durante a última década, apareceram neste setor novas empresas com novas tecnologias que têm pressionado as empresas já estabelecidas. Estas últimas, por sua vez, foram obrigadas a responder. O setor tem visto transportadoras tradicionais a tornarem-se digitais. E agora, são essas mesmo, que impulsionam a adoção de soluções atuais. No geral, o mercado europeu de modelos de negócio digitais no transporte rodoviário de mercadorias teve um crescimento considerável, o que significa que a maioria destas empresas cobre agora uma grande parte da cadeia de distribuição.
Segundo os analistas do setor, os transportadores digitais estarão em breve em condições de fornecer capacidades de carga garantidas e os mesmos níveis de serviço que os modelos comerciais tradicionais. Nesse caso, os transportadores tradicionais podem ver-se forçados a deslocar os seus serviços para plataformas digitais, embora cedendo algum terreno aos operadores digitais. Talvez o facto de as empresas mais tradicionais darem conta disto, as leve a aumentar os investimentos nas suas próprias transformações digitais e tecnologia, com o objetivo de acompanharem o ritmo do mercado.
Que mudanças podemos esperar no transporte rodoviário de mercadorias europeu como resultado da digitalização dos modelos de negócio?
Sobre este tema, vale a pena lembrar que os transportadores ou plataformas digitais para serviços de transporte representam apenas um aspeto da digitalização. Mas, numa perspetiva mais geral, rapidamente se torna claro que a digitalização está intimamente relacionada com a automatização de processos. Isto significa automatizar não só os serviços de transporte, mas também toda a cadeia de valor. A digitalização no transporte rodoviário de mercadorias é apenas uma peça do puzzle dentro de uma abordagem holística de camiões autónomos e de baixas emissões, conduzidos no âmbito de uma cadeia de abastecimento digitalizada e expedidos a partir de centros logísticos automatizados. Naturalmente, na última década, esta visão tornou-se cada vez mais importante.
Camiões autónomos numa cadeia de distribuição totalmente digitalizada?
O que à primeira vista poderia parecer uma diminuição dos investimentos, na realidade revela-se como um enorme potencial de poupança, segundo os especialistas. Porque, se esta visão se tornar realidade, pode esperar-se uma redução de custos, prazos de entrega mais curtos e uma utilização mais eficiente das capacidades no transporte rodoviário da UE, com valores de até 30-45 % em cada um destes três âmbitos. Pelo menos é isso que prevê a empresa de auditoria PricewaterhouseCoopers na sua análise intitulada The Era of Digitised Trucking (A era do transporte digitalizado).

A sua avaliação baseia-se num cenário futuro que implica uma cadeia de distribuição totalmente digitalizada e automatizada.
Neste cenário, quando um produto numa linha de montagem digitalizada está prestes a ser concluído, é enviado um sinal para reservar o transporte para a sua posterior entrega. O endereço do destinatário já está codificado. O sistema de correspondência de carga procura qualquer capacidade disponível nos camiões que se dirigem para o destino do produto; fá-lo graças a um algoritmo que seleciona a melhor opção entre todas as alternativas disponíveis.
Um robô carrega o produto num camião autónomo, que é conduzido para um centro de distribuição via GPS, antes que outro robô o descarregue. É então transferido e conduzido no último quilómetro num veículo elétrico até à porta do cliente.
Soa a ficção científica? Talvez não, pois já existem todas as tecnologias necessárias: a Internet das Coisas (IoT), o 5G e a condução autónoma.
Neste tipo de cenários, os prazos de entrega poderiam ser reduzidos até cerca de 40%.
Os analistas da PwC basearam a sua avaliação das reduções de custos principalmente numa mão-de-obra mais reduzida, ou seja, principalmente pessoal de armazém e motoristas de longa distância. Dado que o setor está a sofrer de uma falta crónica de condutores, esta estimativa não precisa de ser vista como negativa, pois, juntamente com estas reduções, aumentará a necessidade de pessoal mais qualificado para trabalhar em empresas de logística para supervisionar e gerir os processos. Assim, perder-se-ão empregos numa área, mas ao mesmo tempo serão criados empregos noutras áreas, muitas vezes com horários diários menos exigentes. Ao utilizar camiões autónomos, também haverá uma poupança significativa graças a uma melhor utilização dos veículos, uma vez que os condutores não teriam de ter períodos de repouso e os veículos não teriam de ser equipados com cabinas de condução dispendiosas.
Aspetos negativos da transformação digital
O lado negativo deste cenário é que os peritos esperam que as empresas de transporte cuja atividade principal consista exclusivamente no transporte de mercadorias desapareçam do mercado. Durante a automatização dos processos de armazenagem e transporte, as grandes empresas tecnológicas entrarão no mercado da logística e tornar-se-ão cada vez mais influentes. Para se manterem competitivas, as transportadoras terão de adaptar as suas carteiras de produtos. Este é um desafio, já que este tipo de adaptação requer muitas vezes o desenvolvimento de novos conhecimentos técnicos, o investimento em novos equipamentos, o aumento das vendas ou mesmo uma mudança no foco geográfico. Sob estas condições de mercado, a agilidade torna-se numa vantagem competitiva fundamental. Mas não nos podemos basear apenas na agilidade, uma vez que existem outros fatores que influenciam o sucesso de uma empresa, tais como o desenvolvimento de especializações, regiões e mercados.
Quando é que uma cadeia de distribuição totalmente digitalizada se tornará uma realidade?
Dado o impacto atual da pandemia do coronavírus no setor dos transportes, a visão de uma cadeia de abastecimento totalmente digitalizada parece muito distante. Contudo, os analistas da PwC esperam que tal cenário comece a tornar-se uma realidade em 2030.
E não são os únicos a expor a sua visão da digitalização e automatização totais; a única coisa que difere de perito para perito é quando isso irá acontecer. Por exemplo, o Gabinete Federal Suíço para o Desenvolvimento Regional publicou um relatório sobre a digitalização da mobilidade que explora possíveis desenvolvimentos tanto no transporte de passageiros como de mercadorias. No transporte de mercadorias, os estudos de viabilidade analisam três cenários diferentes:
O cenário de "automatização", que supõe uma percentagem de 80-100% de veículos altamente automatizados ou totalmente automatizados na estrada ou caminhos-de-ferro. Os recursos não seriam partilhados entre empresas.
No cenário de "uso partilhado", a utilização conjunta de recursos entre empresas torna-se mais importante. A base tecnológica para isto - plataformas digitais - já está em vigor. No entanto, o progresso tecnológico no sentido de veículos sem condutor está a desenvolver-se bastante lentamente devido à falta da estrutura necessária para a implementação.
Finalmente, no cenário do "mundo dos serviços", a automatização e a partilha desenvolver-se-iam simultaneamente. Pelo menos 80-100 % dos veículos seriam automatizados e os recursos seriam partilhados. O resultado é um mundo de serviços de mobilidade.
Os números citados relativamente a potenciais poupanças são tão impressionantes como as estimativas da PwC. No primeiro cenário, por exemplo, os custos de pessoal no transporte rodoviário seriam reduzidos em 50 %. No segundo cenário, os custos de pessoal e operacionais seriam reduzidos em 25 %. No terceiro cenário, a redução dos custos de pessoal é estimada em 75 %
O potencial de poupança que os autores veem nos cenários de "uso partilhado" e "mundo dos serviços" é explicado - como disseram os investigadores da PwC - em grande medida através da eliminação dos custos com pessoal e, em menor medida, à queda nos custos de energia, por exemplo, através do agrupamento (quando os veículos se deslocam numa caravana). O modelo do "mundo dos serviços" é particularmente convincente em termos de análise da relação custo-benefício. No entanto, os autores não consideram um cenário para 2030. Pelo contrário, marcam a possibilidade de desenvolvimento na mobilidade mais para 2060.
O que significa todo este desenvolvimento para o sucesso económico a longo prazo das empresas?
Resumindo, os autores sublinham que a digitalização da mobilidade trará ganhos significativos de eficiência para a economia. O cálculo da relação custo-benefício é positivo nos três cenários possíveis. No entanto, não é claro qual dos três cenários de desenvolvimento digital irá prevalecer.
Embora em duas das três análises haja opiniões contraditórias sobre os prazos para uma possível automatização, o objetivo a que nos propomos é claro.
Em última análise, a competitividade do setor logístico europeu dependerá de uma adaptação adequada à digitalização. Portanto, as empresas tradicionais enfrentam o desafio de construir uma infraestrutura digital competitiva. E não devem esquecer que isto inclui não só investimento técnico, mas também investimento em formação para os empregados.
A longo prazo, os camiões automatizados serão um elemento fixo nas estradas da Europa e resolverão a crise de falta de condutores. Mas pode levar mais 10 anos, ou mesmo 40, até que isso aconteça. Por enquanto, e a médio prazo, o problema da falta de condutores permanecerá.
Também a médio prazo, os investimentos não devem concentrar-se unicamente na digitalização, mas também, e de forma urgente, na geração mais jovem de hoje. Oferecer melhores salários e benefícios sociais parece ser a melhor forma de atrair os jovens para empregos de condução de camiões, o que aumenta os custos. Isto, por sua vez, é transmitido às empresas de logística.